Meu diário virtual


1 – ASSIM QUE MINHA VIDA COMEÇA


Olá, meu nome é Anita, como vão vocês? Espero que bem. Ah, essa é a primeira página do meu diário virtual, todas as minhas aventuras, eu vou escrever todas aqui, se bem que minha vida não é tão aventureira, eu só sou uma garota de 15 anos, que vive no Rio de Janeiro, acho que minha maior aventura até agora foi andar de cavalo pela primeira vez e cair. Minha vida é muito chata, às vezes tenho vontade de sumir daqui e ir para um lugar bem longe, onde ninguém me ache, mas também não sou uma garota neurótica que só vive se queixando da vida, sabe o que eu quero da minha vida? É ter uma aventura, só uma, que eu vou ficar feliz. Mas, eu não tenho muitos amigos e não saio muito por aí. Acho que seria bem difícil de ter uma aventura.

Meu diário virtual também parece estar muito chato, toda minha vida é chata. Ok, talvez eu me queixe um pouco da minha vida, mas é só um pouco. Tudo bem, eu vou parar um pouco, porque eu tenho que ir almoçar depois eu volto.

***

Minha mãe já estava me chamando para ir almoçar, e eu obediente como sempre respondi a ela.

- Oi mãe, já estou aqui.

- Anita, já lavou as mãos para almoçar?

- Já volto mãe.

Como devem ter percebido, minha mãe é uma daquelas que sempre manda os filhos lavarem as mãos antes de cada refeição. Isso mesmo, “filhos”, tenho um irmão mais velho, Joe, 17. E uma irmã menor, Sophie, 13. Sou a filha do meio, e às vezes é muito chato ficar no meio, porque você é culpada de tudo, por estar “no meio”. Lá vem meu irmão, chato.

- Anita, eu perdi minha escova de dente e usei a sua, tudo bem, né? – respondeu ele mesmo – Eu sei que tá.

Viu só como ele é irritante, porque eu não nasci filha única. Bom, vou voltar para a mesa. Meu irmão é o que mais fala durante as refeições. Por exemplo: Mãe eu fui ao shopping com meus amigos e encontrei o fulano e depois ele foi sei lá onde.

- Cadê seus boletins? – perguntou a mãe.

- O meu está aqui, só nota azul. – disse Sophie.

Sophie se achava a melhor entre nós, ela também é muito chata.

- Onde está seu boletim Anita? – perguntou a mãe.

- Aqui mãe. – respondeu Anita.

- Tirou 4,0 em inglês? – perguntou a mãe.

- Esse bimestre foi intenso. – respondeu Anita.

- E você Joe? – perguntou a mãe.

- Ótimo, só fiquei para recuperação de cinco matérias. – respondeu Joe.

- Cinco matérias? – perguntou espantada a mãe. – E quais são?

- Inglês, Matemática, Biologia, Física e História. – respondeu Joe.

Acabou o almoço, vamos voltar ao meu diário. Bom, como eu estava dizendo, minha vida é...

- O que é isso? – perguntou Joe.

- Nada. – respondeu Anita, escondendo a página.

- Deixo ver. – tira a Anita da cadeira, começa a ler. – Meu diário virtual, minha vida é chata, meu irmão é chato, meu irmão é chato, meu irmão é chato, meu irmão é chato. Ah, minha irmã é chata...

- Sai daqui. – disse tentando tirar Joe da cadeira.

- Espera, deixo-me escrever uma coisa. – começa a digitar. – Olá queridos perdedores, esse é o site da minha irmã chata, porque só sendo perdedor pra visitar esse site.

- Sai Joe. – desce as escadas, e grita para a mãe. – Mãe, o Joe não quer sair do meu laptop.

- Joe sai do laptop da sua irmã. – grita de volta.

- Ok. Tchau perdedora.

Viu só o meu irmão é o garoto mais chato do mundo, ele é tão chato...

- O que você está fazendo? – perguntou Sophie.

- Nada, sai daqui. – empurra Sophie para fora do quarto.

- Vou contar pra mãe que você me empurrou.

Minha irmã também é tão chata, estou vendo que não vou conseguir começar esse diário virtual hoje.

***

Nós estamos indo à praia, eu, minha mãe, meu pai, Sophie e Joe. Desculpa. Eu nem apresentei meu pai, mas ele é tranquilo.

- Eu vou surfar – disse Joe com a prancha de surfe na mão.

- Eu vou andar pela praia – disse Anita.

- Não vai muito longe – disse a mãe preocupada.

Minha mãe sempre se preocupa comigo e com Sophie e Joe, mas quantos anos ela acha que temos? Joe tem 17, Sophie 13 e eu 15, e, nós já somos adolescentes, está certo que a Sophie ainda é pré-adolescente, eu sempre...

- Oi. – disse um garoto.

- Olá. – disse Anita.

- Você traz laptop pra praia? – perguntou o garoto.

- É meu diário. – respondeu Anita.

- Legal. Diário virtual. – disse o garoto. – Eu sou Alex, e você? – perguntou.

- Anita. – respondeu Anita.

- Nome bonito. – disse Alex. – Seu sotaque é legal, da onde você é? – perguntou.

- Eu nasci no interior do Rio de Janeiro – respondeu Anita.

- Sério? Eu também. – disse Alex.

- Legal. – disse Anita.

Ele era perfeito o Alex, alto, bonito, charmoso, simpático, será que é ele, o cara em que eu vou me apaixonar? E ele tem um sorriso maravilhoso.

- Você quer? – perguntou Alex.

- O quê? – respondeu Anita, voltando à realidade.

- Quer me ver surfar? – perguntou Alex.

- Claro! – respondeu Anita.

Alex parecia um garoto muito educado. Será que ele gostou de mim?

- Gostou? – perguntou voltando todo molhado.

- Você surfa muito bem. – disse Anita.

- Muito obrigado. – disse Alex.

E ele fica muito lindo quando está molhado.

- Quer um sorvete? – perguntou Alex. – Eu pago. – completou.

- Tá bom. – respondeu Anita.

- Posso te fazer uma pergunta? – perguntou Alex – Você acha que eu tenho jeito pra músico? – perguntou.

- Eu não sei, você sabe cantar? – respondeu Anita.

- Tá bom. – ele começa a cantar.

As pessoas que estavam na praia, começaram a se aproximar dele para ouvi-lo cantar, e em seguida, quando ele acaba de cantar, todos aplaudiram, até um empresário que cuida de jovens cantores, aproximou dele.

- Você canta bem garoto. – disse o empresário.

- Muito obrigado. – disse educadamente Alex.

- Eu sou Hernando. – apresentou-se.

- Alex. – disse.

- Aqui está meu cartão. – entrega-lhe um cartão. – Se quiser seguir carreira, aparece amanhã nesse endereço, que conversaremos.

- Claro! – disse Alex.

O empresário vai embora, Alex estava muito animado.

- Nem preciso te responder se você tem jeito pra músico, né? – perguntou Anita.

- Nossa nem acredito nisso, que felicidade. – perguntou Alex.

- Fico feliz por você.

- Quer sair comigo qualquer dia?

- Pode ser.

- Já sei, que tal você ir comigo conversar com o cara e depois a gente toma um café?

- Ok. Tenho que ir agora.

- Espera, pega o número do telefone.

- Tá. – ela pega e vai embora.

Estava tão animada de ter conhecido um garoto tão legal, e simpático. Mas, minha felicidade não ia durar quando eu chegasse a casa.

- Onde estava filha? – perguntou a mãe.

- Na praia. – respondeu Anita.

- Não conseguimos te achar, pensei que tinha voltado para casa, mas quando não te vimos aqui, nós ficamos muito preocupados. Se você não chegasse agora, iríamos chamar a polícia. – disse a mãe.

- Mas, eu estou bem, não precisam ficar preocupados. – disse Anita. – E amanhã eu vou sair com um amigo meu. – completou.

- Você sumiu na praia e ainda vai querer sair com um amigo que eu nem conheço, ah, por favor, filha. – disse a mãe. – E em primeiro lugar eu sei que você não tem amigos, só tem uma amiga, que foi para a Índia. Então, traduzindo, você não tem amigos aqui, você não vai a lugar nenhum, com nenhum garoto.

- Mãe! – exclamou Anita.

- Chega Anita! – exclamou a mãe. – Por que você não é igual ao seu irmão? Ele vive rodeado de amigos, e você não tem um único amigo, pra você passear, é por isso que você vive grudada na frente desse computador.

- Claro, é tudo que eu tenho mãe. – disse Anita, quase chorando. – Tudo que você compra, na maioria das vezes, é sempre para o Joe ou pra Sophie...

- Isso é mentira, sua ingrata, você é a única aqui que tem esse notebook, seus irmãos tem computador. – disse a mãe.

- É. Mas, quando foi à última vez que você comprou uma roupa pra mim? – perguntou Anita.

- Você não precisa de roupa, você nunca sai, nunca vai ao shopping. – disse a mãe.

- E como? Você não me dá dinheiro. – disse Anita, não conseguindo controlar o choro.

- Pra que você quer dinheiro? Você nunca sai de casa. – disse a mãe. – Anita, vá para o seu quarto não quero mais discutir com você. – completou.

Eu fui para o meu quarto, tudo que eu queria fazer era chorar, não importa onde, nem quando, eu só queria chorar, e eu ouvi bater na minha porta, era o Joe.

- Anita, abra essa porta, não liga para o que a mãe disse, ela está com a cabeça quente, abra Anita. – disse Joe.

Eu não respondi, eu só queria chorar ou talvez sumir daqui, não queria ver ninguém. Às vezes acho que minha mãe nunca me quis, mas por que eu? Poderia ser com o Joe ou com a Sophie, o que eu fiz? É tudo que eu quero saber. Nota-se que ela não me ama, às vezes eu tento me convencer que ela me ama, mas eu não lembro um dia que ela demonstrou afeto por mim, um pouco de amor, tudo que ela faz comigo é gritar. Eu não quero ficar aqui, eu quero é sumir, eu não sou feliz aqui. E se ela não for minha mãe? Pensando bem, ela não é parecida comigo, nem meu pai. Eu nunca reparei, mas eles não são parecidos comigo. E se eles me adotaram? O Joe também não parece comigo, nem a Sophie. Eu tenho que pegar uma foto minha de quando eu era pequena.

Quando eu olhei minha foto e as comparei com as fotos dos meus pais, eu percebi que eu não tenho nada a ver com eles, quem são eles? Quem são meus pais? Eu tenho que saber.

***

- Quem são vocês? – perguntou Anita.

- O que você quis dizer? – perguntou a mãe.

- Vocês não são meus pais, não tem nada a ver comigo. – disse Anita.

- Tudo bem, está na hora de você saber a verdade. – disse o pai.

- O que? – perguntou Anita.

- Nós não somos seus pais. – disse a mãe.

- Quem são meus pais? – perguntou Anita.

- Não sabemos. – disse o pai. – Numa noite qualquer. Bateram na nossa porta, e só vimos um cesto, e vimos que tinha um bebê dentro dele. Pensamos o que iríamos fazer com aquele bebê, já tendo um bebê aqui, o Joe. Nós pensamos em dar para o orfanato, mas ficamos com medo de te maltratarem, de não receber o carinho que merece, aí decidimos adotar e até hoje não sabemos quem são seus pais.

- Eu quero ir embora. – disse Anita.

- Você não pode. – disse o pai.

- Não vou ficar na casa de estranhos. – disse Anita.

- Estranhos que cuidaram de você, sua vida toda. – disse a mãe.

- Porque pensei que vocês fossem meus pais. Agora não importa. Eu vou embora. – disse Anita.

- E pra onde você vai? – perguntou a mãe.

- Não sei. – respondeu Anita. – Aqui eu não fico. Mas, por enquanto, eu vou para o meu quarto.

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